sexta-feira, 7 de julho de 2017

A diferença


A porta fechara-se com estrépito. Mariazinha batia o pé chorosa. Queria a boneca grande, queria!
A mãe, preocupada, em vão procurava explicar-lhe porque não podia atender-lhe o desejo. Contudo, a menina desatendia a qualquer raciocínio.

Sua mãe, era de condição modesta, não poderia jamais conceder-lhe o pedido. Conseguira comprar-lhe o vestidinho simples, mas alegre, e uma boneca pequena, mas graciosa, entretanto, a menina não ficara feliz com o presente materno.
Vira a menina rica da esquina, cercada de luxo e presentes caros, de bonecas suntuosas. Não compreendia porque ela não podia ter o mesmo. Julgava que a mãe não lhe queria dar.
- Minha filha! Compreenda que temos o bastante! Não precisamos de nada mais para nossa felicidade! Jesus ficará triste se você for
vaidosa e a inveja agasalhar-se em seu coração.

- Jesus não gosta de mim! - dizia ela a chorar - Por que dá tudo às outras e a mim só isso? A senhora não diz que Ele é justo e bondoso?
- É. Jesus nos tem ensinado que Deus é pai bom para todos e colocou cada um de nós no lugar onde precisa estar, para aprender a viver feliz! Não nos deu dinheiro porque somos muito vaidosos e o dinheiro nos faria mal. Entenda filha, é para o nosso bem! Sejamos felizes e agradeçamos ao Senhor o pouco que temos.

A menina calou-se pensativa, mas trazia ainda a revolta estampada na face. Apanhou a boneca modesta, que a olhava com olhos inocentes, com evidente desgosto.
Foi quando a campainha da porta soou. Seria o pai com algum presente? Correu a abrir com a fisionomia subitamente animada.

Estacou surpreendida. Pobre mulher trazendo uma criança ao colo e outra pela mão, estendia a mão suplicante.
A dona da casa correu a buscar algum alimento. Era noite de Natal!
A menina recém-vinda olhava maravilhada para a outra e seus olhinhos brilhantes iam do vestido novo à boneca que ela carregava.
A outra, fitando-lhe o corpinho magro e maltratado, os pés descalços e os olhos tristes, sentiu-se repentinamente rica.
- Posso ver? - indagou a pobre criança aproximando-se.
- Pode. Gosta?
- É a boneca mais linda que já vi!
- Você tem uma igual?

A outra abanou a cabeça.
- Não. Mas quando eu crescer, vou ter uma boneca de verdade. Que fala, que anda, que chora e que ri.
- Como assim?...
- Deus vai me dar uma, mamãe disse. E será mais bonita do que todas as bonecas mortas que tem por aí!

A outra ficou pensando, pensando.
Quando se foram, a menina aproximou-se da mãe em atitude humilde e perguntou:
- Mamãe, Deus também vai me dar uma boneca de verdade quando eu crescer?
- Vai, minha filha, se você merecer.
- E para a filha de Dona Bety também?
- Sim minha filha, se ela for boazinha.

- Então, mamãe, Deus é justo mesmo! Porque se os papais da terra
dão para as filhas as bonecas que podem, Deus dá para todas
bonecas iguais!
E sorriu completamente feliz.

A dor pode ser comparada ao instrumental de um hábil escultor

Com destreza e precisão técnica, ele toma de uma pedra dura como o mármore, por exemplo, e pacientemente a transforma em uma obra de arte, para encanto das criaturas.
A beleza da pedra só aparecerá aos golpes duros do cinzel, na monotonia das horas intermináveis de esforço e trabalho.
Assim como a pedra se submete à lapidação das formas para se tornar digna de admiração, somente os corações que permitem à dor esculpir sua intimidade, adquirem o fulgor das estrelas e o brilho sereno da lua.

A Dor

Dez horas da noite. Volto para casa após um dia cansativo. Minha família me espera como todos os dias. Da janela do ônibus, meu olhar vagueia, perdido no espaço sem horizonte, sem uma imagem, sem limite. Minha mente não fixa nenhuma idéia, como uma pena levada pelo vento, sem destino ou parada, simplesmente solta.

De repente, casualmente, fixo meu olhar desprevenido em algo que me fez tremer de pavor, tristeza, remorso, um misto de sentimentos que não sei defin
ir. Talvez angústia? Não, realmente, não sei. Só uma coisa tenho certeza: Eu vi a face da dor!!! E ela doía e doeu em mim ver a sua dor.

Sua testa franzida formava vincos fundos. Seus olhos marejados com lágrimas que insistiam em não cair. Sua boca se movia sem ruídos, sem palavras, expressando como que um pedido de socorro, uma súplica. Seu rosto contraído era o próprio grito da alma torturada. E ela doía e doeu em mim ver a sua dor.

No sinal fechado, a dor vagava por entre os carros mostrando sua face para todos, estendendo sua mão a pedir, não apenas um trocado para comprar um pão, não, mas um olhar de misericórdia, talvez. Alguém que lhe desse um sorriso, se é que alguém poderia diante da sua expressão fazer sequer uma menção de sorrir. Preferiam não ter que passar por aquela situação, e com seus dedos em riste, numa frieza mais triste ainda, talvez usada para se proteger, negavam qualquer compartilhamento, qualquer troca, para que a dor pudesse quem sabe se sentir um pouco humana. Quem sabe? E ela continuava doendo, e doía em mim ver a sua dor.

E durante a eternidade que dura os minutos entre o fechar e o abrir de um sinal de trânsito, pude presenciar o desespero da dor, que, diante de tantos nãos, se encosta em um muro frio, úmido e chora.

Eu vi a dor chorar. Um choro que não se descreve, por falta de palavras que possam fazê-lo. O choro da alma torturada. O choro do abandono. E o mais triste de tudo, a dor era uma criança. Uma criança igual aquela que, em casa, me esperava dormindo entre os seus brinquedos, agasalhada, linda, protegida.

O sinal abriu e eu segui com a imagem da dor na minha retina, ou melhor, na minha alma. Ao chegar em casa, corri e beijei a criança que dormindo tranqüila me esperava e falei: felicidade, a dor vaga lá fora.

A deusa do sal


Conta uma lenda que em uma ilha longínqua vivia uma solitária deusa de sal. Ela era apaixonada pelo mar. Passava dias, noites, horas na praia observando o balanço de suas ondas, sua beleza, seu mistério, sua magnitude.

Um desejo enorme começou a apossar-se do seu coração: experimentar toda aquela beleza. Esse desejo ia aumentando até que um dia a deusa resolveu entrar no mar. Logo que ela colocou os pés no mar, eles sumiram, derreteram-se.

Encantada com o mar, ela seguiu em frente e logo após suas pernas e coxas não mais existiam. A deusa, entretanto, seguiu adiante, sentindo partes do seu corpo derretendo-se, até ficar apenas com o rosto do lado de fora.

Uma estrela que observava tudo falou:

Linda deusa, você vai desaparecer por completo. Daqui a pouco você
não mais existirá. A água do mar desfazia o rosto da deusa,
mas ela respondeu fazendo um esforço:

Continuarei existindo, porque agora eu sou o mar também.
Para conhecer e experimentar é preciso permitir-se, ir em frente. Quando isto acontece, a mudança se dá, mudamos. A deusa mudou, transformando-se em mar, fazendo parte dele, passou a ser o mar que ela tanto admirava da praia.

O mar por sua vez, também transformou-se, porque foi salgado pela deusa.
Ambos experimentaram a mudança:

a deusa e o mar.